CRÔNICAS HUMORÍSTICAS DE UM QUARTEL DE POLÍCIA
By:Josdag Pedreira Oliveira
ESTE SÍTIO TEM COMO OBJETIVO DEMONSTRAR DE FORMA CÔMICA AS DIVERSAS SITUAÇÕES VIVENCIADAS PELO POLICIAIS MILITARES QUE TRABALHAM EM CIDADES DO INTERIOR OU QUE DELAS SÃO ORIUNDOS
SÃO SITUAÇÕES INUSITADAS QUE DEIXAM O PERIGOSO COTIDIANO POLICIAL MENOS AMARGO E MAIS ENGRAÇADO
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Que lugar é esse meu Deus!?
Aquelas velhas e consagradas frases que dizem que homem não chora, que polícia é superior ao tempo, polícia não se abala com nada, incutidas nas nossas mentes desde criança e reafirmadas
na escolinha de polícia, descem pelo ralo quando se está a mais de sessenta quilômetros do primeiro chuveiro que sai água sem lodo.
Essa mistura de lama e vegetal já proporcionou situações constrangedoras a diversas pessoas no destacamento em que sirvo. Experimente tomar um banho por aqui e não se olhar no espelho para
retirar aqueles resíduos verdes e gosmentos do cabelo para ver com o que serão confundidos.
Para se ter uma idéia geral de como é a cidade em que trabalho e de outras tantas e pequenas por aí espalhadas, farei uma breve explanação da rotineira vida num destacamento PM.
Geralmente estes destacamentos são desprovidos de tudo quanto é bom. O que mais fazemos por aqui é a chamada economia forçada, dificilmente se encontra algo de interessante ou de gostoso para
se gastar um pouco de dinheiro. E é por conta destas dificuldades, que procuro, diariamente, em mim mesmo, respostas consoladoras para as minhas mais freqüentes inquietações. Exemplo:
Aqui não se sai de casa. Logo penso: “Na rua corremos o risco de ser atropelado por elefantes, como ocorreu na Tailândia, então, sair para quê?”.
Não se acha um sorvete (sorvete gripa!), nem mesmo um docinho (doce dá diabetes!).
Não se encontra frutas para comprar (Virei passarinho pra tá comendo fruta?).
Não se diverte (divertir pra que, o palhaço Bozo divertiu gerações mesmo assim morreu).
Não se come verduras nem legumes (também; quem gosta de folha é lagarta!).
Tá bom, confesso que exagerei um pouco, tem algo de bom sim num destacamento, veja que você não corre o risco de acabar de arrebentar o já esfolado joelho, por conta do sobrecarregado treinamento
policial militar, jogando uma bolinha. Nem de sofrer um estiramento no braço em uma partidinha de peteca. Há pouca opção para a prática de esportes, com exceção do tiro ao alvo com estilingue.
O risco de ser atropelado é mínimo, a não ser que você seja, ou esteja desatento o bastante para entrar debaixo de uma charrete. O município é pequeno, não morre quase ninguém, logo o cemitério
está cheio de vagas, meio mórbido, mas não deixa de ser uma vantagem, principalmente se levarmos em consideração que boa parte das pessoas lutam a vida inteira por uma porção de terra.
A respeito da alimentação, havia dito que não se come verduras nem frutas, em compensação se come terra, poeira, nenhuma rua tem asfaltamento. Taí, mais um ponto positivo que quase me esqueço de
relatar, quando chove se bebe água sem lodo sim, só sair na chuva e abrir a boca pra cima é a única alternativa possível.
O mais importante de todos os triunfos certamente é por conta de ser a cidade muito pequena, é tão pequena que você não corre o risco de levar um chifre da namorada e não ficar sabendo. Tem gente
que acha isso vantagem!
Hoje posso dizer que aprendi muito, e tenho certeza que mesmo se me destacarem para trabalhar numa caverna consigo me adaptar bem. Fato é que, não mais me assusto com o trânsito de toda qualidade
de bicho na porta do quartel: porco, veado (o animal silvestre, não o urbano), bode, mula, galinha. Ademais, ao contrário do que pensam alguns, toda galinha que entrou no quartel deixei sair,
nunca confinei galinha alheia nenhuma aqui. Veado, nunca se atreveu a entrar no quartel, pelo ao menos no meu plantão, posso provar.
Apesar das dificuldades apresentadas, pouca coisa consegue me chatear, porém é bem verdade que me dói sair de casa em pleno domingo com cabelo cheio de lodo, pisar naquele chão de terra, olhar
pra cima e não ver ninguém, pra baixo, ninguém, voltar pra casa, ligar a televisão e ver que até a energia foi embora, mas eu? Eu...bem! Eu permaneço aguardando minha transferência.
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Vida de cão
Que beleza! Recém formado no Curso Técnico em Segurança Pública, vibrando igual Jipe na banguela. Uso progressivo da força, técnicas de adentramento, polícia comunitária. Os conceitos e procedimentos,
ainda latentes, ansiavam para serem colocados em prática. Aí, no meio do caminho, surge um percalço: destacamento PM a vista.
Cidade pequena com cinco mil habitantes, nada de viatura, apenas dois policiais, logo pensei: “conceito de superioridade de força já foi pro saco”. Escassez de vários recursos, inclusive os humanos,
essencialmente os femininos, se é que me entende?!
Com o passar do tempo, percebi que não era tão mal assim, algo de bom eu poderia extrair daquela experiência. A excentricidade de certas situações que creio eu, acontecem apenas em destacamento PM,
fariam com que eu enxergasse o mundo sobre outra ótica, meio retorcida, mas não deixaria de ser nova. Um exemplo claro dessas situações foi uma das primeiras ocorrências que atendi por aqui. Observe:
Um senhor chega a mim nervoso e ofegante, com olhos lacrimosos, suando igual tampa de chaleira e relata:
_ Ô seu Predera (seria Pedreira, meu nome de guerra, mas tudo bem, deu pra entender) um hômi pegô meu cachurrim que tava ingatado na cadela da muié dele, e cortô o pinto do bichim com um conivete.
_ Onde esse homem mora? – Perguntei.
_ Na rua do compu.
_ Compu?
_ É! Lá no compu de bola.
_ Ah! Campo!
_ Eu guardei o pinto do bichim, o sinhô quer vê?
_ Naaaaãooooooo! Carece não! Acredito na sua palavra.
Juntamente com as inúmeras dificuldades em que se seguiu ao registro de uma ocorrência de tamanha complexidade, surgiu também uma gama imensa de questionamento dos quais os mais importantes seriam:
Qual natureza atribuir àquele Boletim de ocorrência? - Lesão corporal, tentativa de homicídio?
Quem seria a vítima, o cachorro ou seu dono?
Qual nome atribuir ao órgão arrancado quando do registro do histórico.
Prestar primeiros socorros, sim ou não? Brincadeira, nisso não pensei, mas se acaso tivesse pensado, raciocine comigo. Teoricamente prestaria socorro a vítima (se é que bicho pode ser vítima). Se
ficasse vivo, o animal teria que representar na delegacia contra o autor, não é? Se bem que certamente ele optaria em não levar o caso adiante, devido a tão grande humilhação a que se submeteria em
admitir que perdeu o símbolo máximo de sua masculinidade em plena atividade física. Quem sabe então, sentido tão prejudicado quanto coitado do bicho ou servindo de porta voz, interlocutor ou qualquer
coisa do tipo, o dono do animal assumindo a função de representante legal (Cachorro tem isso, representante legal?) buscaria as providências cabíveis. Complicado, não?
A despeito das dificuldades efetuei o registro do BO, e como de praxe encaminhei tudo para o delegado. Quando digo tudo é tudo mesmo, inclusive a peça arrancada que, embora muito importante para o
inquérito, provavelmente o delegado não faria questão de ver (eu disse provavelmente...!?).
Todavia, o “bichim” sobreviveu, apesar do trauma físico e principalmente psicológico que o acompanharia para o resto de sua curta e trágica vida de cão.
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| Fogo amigo
Um tal de Tiãozão Matador aprontava muitas das suas no pequeno povoado de Brejo dos Mártires, na zona rural de Gameleiras. Quando a PM chegava ao local de suas peripécias ele evadia pelos fundos de sua
casa, que era cheio de moitas de espinhos estrategicamente plantadAs para facilitar a fuga e atrapalhar a ação da polícia. Valendo-se de sua corpulência, o Tião arrancava mato no peito, pisava em prego,
pulava muros e sempre conseguia se safar.
Traçado o plano para agarrá-lo deslocou todo o efetivo policial (como sempre dois militares) para o local onde cometera mais um crime. Tendo em mente que não seria uma prisão fácil, os policiais se
equiparam com grossos bastões de madeira e toda coragem que dispunham.
Na casa, um PM ficou no espinhoso quintal e o outro na frente. O da dianteira da residência deu as graças:
_ Matador! É a polícia, saia com as mãos para cima!
Ao ouvir aquele chamado intempestivo o Tiãozão despertou do sono e saltou para o quintal, porém lá deparou com um militar. O PM, apesar de ter ouvido falar, não conhecia o famoso brigão pessoalmente,
quando o viu e avaliou suas dimensões ficou na dúvida se corria contra ou a favor do Tiãozão. O militar teve puramente o impulso involuntário de levantar o bastão de madeira, não sabendo precisamente se
ia atacar ou se defender. Sei que, quando o autor viu o pau armado em sua direção, deu rápida meia-volta, arrebentou a porta da frente e saiu correndo, dando de cara com o outro PM.
Ficaram ali alguns segundos, um olhando para o outro, silêncio total, PM girava para um lado, o Matador para o outro, até que resolveu sair correndo... o Matador é claro.
No momento que o grandalhão tentou sair pela tangente o militar se viu obrigado a voar no seu pescoço e tentar dominá-lo. O outro PM que tava nos fundos, percebendo a abordagem, achegou-se e tentou
ajudar. Veio de lá do quintal com um chute mentalmente programado. Aproximou-se e fazendo mira no estômago do indivíduo, aplicou-lhe um pontapé com toda a força e velocidade adquirida no embalo. Vendo
que seria seriamente atingido, o Matador virou-se repentinamente de costas na tentativa de se proteger, devido a seu porte físico avantajado, quando se virou trouxe para frente o polícia que estava
dependurado nele.
O que desferiu o chute até percebeu a virada só que, de tão forte tinha sido o pontapé, não mais poderia freá-lo, tampouco pará-lo, assim o bico do coturno acertou em cheio as costelas do colega de
farda, que sem saber ao certo o que lhe atingira, soltou um berro estridente:
_Ai, filho duma ég...
O militar atingido largou do pescoço do cidadão infrator, afastou da cena e curtiu a dor observando o agarra-agarra que agora seu colega de farda protagonizava com o grandão. Tentava inutilmente
disfarçar a dor. Abotoava e desabotoava o botão da gandola, próximo ao local atingido e sutilmente com a pontinha do dedo mindinho, alisava a região machucada.
O fato ocorreu por volta das três da matina e o povo já tinha acordado para acompanhar tão aclamado episódio, afinal se tratava de um cidadão que apesar de muito aprontador, nunca tinha sido preso e
todos ali o temiam.
Recuperado da dor e já tendo clara visão do que acontecera, o militar machucado planejou dar o troco. Ficou imaginando que aquele chute tinha sido de propósito. Dias antes, os dois haviam discutido
acerca de um leite que, um comprava, dois bebiam e só um pagava. Pensando ser este o motivo do chute, falava consigo mesmo, enquanto olhava para o porrete:
_ Vou botar o pau nele também!
Porém, como a honra e o dever militar falou mais alto e o código de ética e disciplina, que trás punições para divergências desta natureza fora estudado a pouco reconsiderou e deixou para outra
oportunidade. Pôs então o corpo no lugar, ajeitou a coluna, verificou que não havia nenhuma costela quebrada, e voltou à ação, segurando desta vez, com bastante firmeza o autor. O grandão imobilizado
no chão gritava:
_Ai meu Deus, me larga! Ai meu Deus, me solta!
O restante da vizinhança que ainda não tinha levantado, acordou para ver quem é que Deus segurava com tanta força.
O Matador, algemado dentro da viatura, fixou o olhar nos bastões de duas polegadas e talvez esperando uma represália por parte dos policiais, (coisa impensável por parte deles) já foi logo dizendo:
_Seu pulícia! Este apelido de Matador é por que eu trabalhava num açougue, eu matava gado. É só por isso!

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De quem será... De quem será??
Dois cidadãos roubaram duas bicicletas. Nós prendemos e os conduzimos até o quartel perfazendo um percurso de seis quilômetros no total. No trajeto tivemos aquela velha e amigável conversa (tudo dentro
dos direitos humanos) para que lembrassem onde tinham deixado as peças que haviam retirado das bikes, ambos tinham esquecido onde colocaram. Até aí tudo normal e perfeitamente compreensível. Em um mundo
essencialmente capitalista como o contemporâneo, em meio ao caos urbano-social, frente à brusca baixa do dólar e a queda das ações da Bovespa não era de se estranhar que aqueles rapazes, residentes de um
povoado de trinta habitantes e com o segundo ano do primário já completo, esquecessem onde guardara seus pertences, quanto mais os do outros.
Repentinamente, sem pedir licença, no meio da conversa um odor característico e nada agradável elevou-se e ocupou todo o interior da viatura. A conversa cessou, os rostos se enrugaram, o clima ficou
pesado.
Para termos absoluta certeza e não caluniar ninguém aguardamos um pouco com o objetivo de confirmar se aquilo era realmente verdadeiro. Para infelicidade de todos e tristeza geral da nação era real,
podem acreditar, era muito real mesmo, meu nariz que o diga. De maneira despistada deixei a caneta cair, abaixei e verifiquei debaixo do coturno, não havia nada de comprometedor ali. Sorrateiramente o
Sargento olhou para mim - ele sentiu primeiro - eu olhei para
ele - senti depois. Pensei em fazer uma acusação aos já acusados, desta vez, de um crime diferente, crime ambiental: poluição atmosférica.
Imaginei, então que seria um tanto quanto desumano atribuir um cheiro daquele a um ser humano ainda vivo.
Sem querer fazer falsas, ou pelo ao menos supostamente falsas acusações, contra o colega de farda, o Sargento, bem mais experiente que eu, até mesmo nesses assuntos, teve uma salvadora iniciativa.
Indagou os meliantes:
_ Qual dos dois fez isto?
_ Isso o quê?
_ Borrou o banco da viatura.
_ Foi eu não! – O outro também respondeu:
_ Nem eu.
_ Vocês estão falando que fui eu então? – Perguntou bravo o sargento.
Em coro ele responderam:
_ Não seu Sargenti.
Demorou, mas percebi que a culpa estava recaindo sobre alguém e que esse alguém era eu. Fui obrigado a defender-me.
_ Olha só “nêgo véio”, lá no quartel tem uma máquina que descobre de quem e de onde saiu isso. Fala logo! Deixa a gente descobrir não que é pior pra vocês.
_ Juro por minha vó que não fiz isto.
_ Juro pela mamãe, foi eu também não, Predera.
Por colocarem com tamanha veemência a avó e a mãe no meio do rolo acreditei neles. O fato de eles destemerem minha “máquina detectora de peid... flatulência” aumentou ainda mais a credibilidade dos
dois. Pensei um pouco e cheguei a conclusão de que não foram os meliantes, e eu tenho pleno controle sobre meu corpo, logo, eu também não tinha sido. Fiquei encucado e não quero acusar, mas até hoje
não engulo aquela história de que a cara feia feita pelo Sargento, segundos antes da proeza mal cheirosa, foi por causa de um dente dolorido.
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Dedicado aos meus amigos da 12ªCia PM Ind (Janaúba/MG) - somente aos amigos.
Nº de pessoas que já perderam seu tempo aqui.

JOSDAG@BOL.COM.BR